quinta-feira, 21 de maio de 2015

Nunca Ganhei uma Alma


Lendo Dostoiévski, descobri que na Rússia czarista os servos eram chamados de "almas". Media-se a riqueza de um homem pela quantidade de almas que tivesse. Num repente, veio a mim a relação entre esse dado e uma questão soteriológica da qual passarei a tratar a seguir.


Cresci ouvindo que todo bom cristão deve ser um ganhador de almas. Aí está a riqueza de um homem perante Deus. O trecho da canção "Despertar para o trabalho" ilustra bem essa crença:

"Posso tendo as mãos vazias,
Com Jesus eu me encontrar?
Quantas almas poderia
Ao Senhor apresentar?".

Cada vez que ouvia essa canção sentia um arrepio. Na minha imaginação infantil, Deus, no final de tudo, faria como uma cigana que nos pede as mãos para lê-las. Eu tinha que me esforçar para levar amigos pagãos à igreja, pois os seus nomes seriam magicamente gravados nas minhas mãos (um tipo de tatuagem invisível).

O primeiro livro de Homilética que li foi José da Silva, um pregador leigo, por volta, talvez, dos meus oito anos de idade. O livro enfatizava a importância do apelo como a cereja do bolo, o pedrinha de brilhante do anel de ouro, o acabamento final e indispensável de qualquer sermão, pois o objetivo maior de todo pregador é "ganhar almas". Na altura dos doze anos, recordo-me bem, preguei um sermão (o tema não me lembro) em alguma igreja e, após o apelo final, duas pessoas foram à frente, confiar publicamente suas almas a Jesus. No final do culto, um pastor de jeito engraçado, vou chamá-lo aqui de Pastor K., me cumprimentou, dizendo: "Parabéns, meu jovem pregador! A sua pregação teve almas!". Não sei se ele recordava de alguma palavra que eu havia dito. O resultado final era o mais importante.

Há pregadores que mantêm em dia a contabilidade das almas ganhas. Não faz muito tempo, ouvi um deles se orgulhar de seus números diante dos ouvintes: "Irmãos, Deus tem abençoado muito o meu ministério. Somente no ano passado foram 365 almas, uma para cada dia do ano". Por um momento, deixei-me regressar à meninice e pensei o quanto seria difícil escrever tantos nomes em apenas duas mãos.

Não sei precisar cronologicamente, mas em algum momento da vida comecei a questionar internamente essa ideia que vou chamar aqui de "Banco de Almas do Céu": cada pessoa que eu convenço a seguir a Cristo é uma alma creditada na minha conta no céu; no Dia do Juízo, Deus emitirá um extrato e estará tudo lá . Creio que a cellula mater dos meus questionamentos quanto a esse assunto está na minha leitura do texto de João 6.44:

"Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia" (NVI)

Eu nunca converti ninguém, nunca ganhei uma alma. Por Deus, essa ideia de que se pode converter alguém... O que se pode (e isso tento fazer) é ensinar, pregar o Evangelho, testemunhar. Todas as almas ganhas, são ganhas por Cristo. Ele é o grande ganhador de almas. Todas, inclusive a minha, estão creditadas na Conta dEle. Não, queridos leitores, não é a minha retórica, a eloquência do meu discurso, a chave do coração de alguém.

Quem poderia conquistar a alma de C.S. Lewis? Ainda bem jovem, iniciou um processo gradativo de repúdio ao cristianismo e passou a desenvolver um pessimismo filosófico inquietante. Não queria acreditar na existência Deus, mas ao mesmo tempo se irritava com Ele por não existir. Enquanto lutava internamente, armado com o seu materialismo racional, contra a ortodoxia cristã, Lewis tinha a constante sensação de que o mundo não se resumia ao que pode ser percebido apenas pelos sentidos naturais; deveria haver o Outro Lado do Rio, a Transcendência, o Mistério. Para o criador de Nárnia havia um Desejo mais desejável que qualquer outro desejo que possa existir. A isso ele chamou de Alegria. Não é o mesmo que prazer, seja erótico ou estético; é algo muito maior. Comparar a Alegria ao prazer carnal era o mesmo que comparar o Sol ao reflexo dele na gota de orvalho. Assim, Lewis foi sendo cada vez mais atraído por Cristo, como a gravidade atrai todos os corpos para o centro da Terra. Então, em uma noite, domingo de Páscoa, exausto, sem ter como mais fugir, o intelectual de Oxford se rendeu ao doce poder da Graça, reconhecendo que Deus era Deus. Ele mesmo disse

"Naquela noite, quem sabe, eu era o mais deprimido e relutante convertido de toda a Inglaterra".

John Stott, em seu livro Por que sou cristão, afirma, como primeiro motivo, o fato de ter sido caçado, capturado por Deus. Ele ilustra Cristo, em Sua ação graciosa, como o "Cão de Caça do Céu". Não foi isso que aconteceu com Lewis, prostrado naquela noite em seus aposentos na Inglaterra? Não foi isso que ocorreu a Paulo, derrubado ali, sem forças, na estrada de Damasco?

Graças a Deus, posso anunciar a Cristo, sem me preocupar com a contabilidade das almas, sem a presunção de uma conta gorda no Banco de Almas do Céu...




Fonte: LEWIS, C.S. Surpreendido pela Alegria. Viçosa: Ultimato, 2015.
           STOTT, John. Por que sou cristão. Viçosa: Ultimato.










segunda-feira, 4 de maio de 2015

Feliciano fora das prateleiras


Nos meus tempos de seminarista, Feliciano era a estrela de maior grandeza entre os pregadores pentecostais. Agora, quando o nome dele é sinônimo de polêmica nacional, vem à memória um episódio interessante ligado àqueles tempos em que eu era estudante de Teologia.


Chegou ao meu quarto um aluno novo, acompanhado por um supervisor do Seminário lá em Pindamonhangaba. Este foi logo mostrando ao recém-chegado a sua cama no andar de cima do beliche, sua parcela de espaço no guarda-roupa, sua escrivaninha e as prateleiras das quais poderia dispor na única estante que dividíamos. O rapaz se apresentou brevemente e já, sem muito descanso e papo, iniciou a tarefa de desfazer as malas. Não começou pelo guarda-roupa, mas pela prateleira. Abriu uma bolsa grande e foi ajeitando, de forma muito caprichosa, os seus DVDs de pregações do Marcos Feliciano. 

Quando o novato ia acabando de organizar suas prateleiras, entrou nos nossos aposentos um aluno veterano, já cursando o seu terceiro ano, aquele tipo meio abusado, galhofeiro... Ao ver o que o calouro fazia, não perdeu a oportunidade de dar as "boas-vindas". Saiu e rapidamente retornou, trazendo uma grande sacola de lixo. Aproximou-se da estante e tomou uma atitude inesperada: foi colocando os DVDs do aluno novo, um a um, dentro do saco. Ao terminar, diante do olhar assustado e estático do pobre moço que acabara de acomodar suas relíquias, disse enfaticamente: "Aqui é lugar de se colocar livros! L-i-v-r-o-s, entendeu? Você agora é um estudante de teologia e não uma maritaca repetidora das pregações de outros!". 

O jovem seminarista era discípulo de Feliciano. Este, com o seu estilo inovador (que ia desde o sapato ao cabelo alisado), sua oratória empolgante, suas ideias teologicamente ousadas, criou uma escola homilética que influenciou centenas de pregadores. Começou a pipocar pelas igrejas pentecostais do Brasil uma turma de felicianólatras que tentavam reproduzir até a voz do seu ídolo em suas pregações. Particularmente, nunca me trouxe grande interesse (pregação, para mim, tem que provocar a reação da mente e do espírito e não a agitação do corpo). 

Não foi uma ação tão ética e cristã assim, aquela do terceiranista, é verdade! Mas, se Deus é poderoso para fazer convergir até os nossos equívocos a algum bem, posso ver positividade nisso. O aluno novo tornou-se um estudioso dedicado da Palavra de Deus, reconhecendo a Bíblia como o mais firme referencial hermenêutico dela mesma. Estabelecer o felicianismo como paradigma hermenêutico e homilético é meio arriscado. Bem, o Feliciano, quanto ao seu papel de pastor, não tenho como avaliá-lo, pois não convivo com ele em sua práxis pastoral; como político, posso dizer que não sei se se trata de vocação política mesmo ou oportunismo; mas, na qualidade de pregador, observo que suas extravagâncias hermenêuticas o desqualificam bastante.  

Terminamos com um final feliz. Os dois, veterano e calouro, se tornaram amigos, e este, ao terminar o seu curso, já contava com uma boa coleção de importantes livros teológicos em suas prateleiras. O mais curioso é que até hoje não sei que fim tiveram os DVDs. Só sei que para aquelas mesmas prateleiras nunca mais voltaram.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sou um Cristão Mundano

"Passarinhos, belas flores
querem m'encantar;
São vãos terrestres esplendores,
mas contemplo o meu lar".

Trecho da canção cristã "O Exilado". Belíssima poesia que demonstra o forte sentimento de exílio no coração de um cristão piedoso. Este almeja o céu, realidade infinitamente superior, diante da qual todas as coisas dessa vida terrena perdem a cor e o sabor. O coração do exilado suplica que Cristo venha logo, pois já está com saudade do paraíso original, do Éden do qual foi expulso e para o qual quer voltar.

Nós cristãos sabemos da nossa condição de peregrinos, afirmamos a efemeridade do mundo, a vaidade de todas as coisas debaixo do sol e aguardamos os novos céus e da nova terra, segundo as promessas das Escrituras. Nessas verdades moram nossa esperança. Mas ideias como essas também podem abrigar equívocos: o não encantamento com a criação, a desilusão total, a insensibilidade estética diante da vida aqui e agora, a negação da marca do divino no mundo criado, a dicotomização gnóstica, que nos faz pensar do mundo um cativeiro da alma.

Contra essa perspectiva espiritualista demais de negação do mundo, afirmo que sou um cristão mundano. Ah, não me envergonho de assumir a minha mundanidade. Porque outro poeta disse que

"Os céus manifestam
a glória de Deus
E o firmamento anuncia
as obras de Suas mãos"

Percebo a eternidade naquilo que é temporal, sinto a liberdade do Espírito no brisa fresca da tarde, contemplo a bondade de Pai na vida simples dos pardais, recebo o Filho em meus braços quando abraço uma criança.

"E viu Deus que tudo era muito bom".

Sou a favor de uma teologia do encantamento, da contemplação de Deus no mundo. Desejo que mais cristãos não resistam e se deixem encantar pelos passarinhos e belas flores. "Olhai os lírios do campo!", foi o convite de Jesus. O que ele queria dizer, ao nos mostrar os lírios é, assim creio: "Permiti que suas cores decorem vossas almas, acinzentadas pelas preocupações da vida; deixai que seu perfume inunde as recâmaras do vosso coração, contaminado pelos odores da ansiedade; confiai na providência do Estilista de toda essa beleza".

"Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão,
em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

Sinto-me cercado por esse Misterium Tremendum que permeia todo o Universo, tenho a constante sensação da bondade e da misericórdia que nos segue, apesar do caos e da dor que o mundo também pode nos apresentar.

Os passarinhos já encantam a minha filhinha de cinco meses de idade. Ao final da tarde, ela e eu vamos para a varanda admirar as garças que voam sincronizadamente, fazendo o caminho de volta a seus lares em magnífico ritual pelos céus de Itaperuna.

"Observai as aves do céu:
não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros;
contudo, vosso Pai celeste as sustenta".

Não, os passarinhos e as flores não são belezas vãs. São sinais do Sagrado no mundo, são a complexidade do Divino imiscuída na simplicidade do humano. Sou um cristão mundano ao não aceitar, como genuinamente cristã, uma espiritualidade espiritualista demais, que só admire os anjos, mas não contemple os passarinhos, que só fale do céu, mas despreze a terra (para mim isso, as vezes, não passa de hipocrisia sob a falsa capa de espiritualidade).

"Do Senhor é a terra e a sua plenitude,
o mundo e os que nele habitam".

Ao Deus que preenche tudo, assim na terra como no céu, seja a glória para sempre.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Os pentecostais estão descobrindo o calvinismo

Um grande número de jovens pentecostais está descobrindo o calvinismo. Eles estão fascinados com as pregações de John Piper e Paul Washer; estão devorando livros de Spurgeon e Jonathan Edwards; estão participando de seminários, cursos e palestras sobre teologia reformada. Essa é uma tendência significativa que já tem chamado a atenção de estudiosos do pentecostalismo, de pastores e líderes, de professores de Teologia. Há muita empolgação, mas também muita desconfiança. Estaríamos presenciando uma nova onda no movimento pentecostal brasileiro: a onda calvinista?
A distância entre a geração dos primórdios da Assembleia de Deus no Brasil, maior denominação pentecostal verde-e-amarela, e a geração que compõem esse segmento evangélico nos dias atuais é oceânica.  Os desbravadores assembleianos encontraram aqui um solo fértil para a plantação de suas igrejas, especialmente entre as populações mais carentes e de baixa escolarização das periferias urbanas e dos rincões do país. A pregação da cura divina, a simplicidade litúrgica, a desburocratização organizacional, o papel central dos leigos na evangelização, o lugar especial dado ao pobre (durante a semana é apenas mais um funcionário subalterno da indústria, vestindo seu uniforme pesado e sujo, mas aos domingos é um pastor, tem direito a sentar-se em lugar de destaque e usar da palavra) são aspectos que ajudaram a determinar o crescimento impressionante alcançado por essa denominação. 

No entanto, muitos filhos e netos dessa vanguarda assembleiana, cresceram em uma realidade totalmente distinta, marcada por: um maior acesso à informação, à escolarização e às universidades; uma tendência forte ao questionamento mais contundente das tradições e costumes sem sentido; um interesse em conhecer as raízes históricas do cristianismo e dialogar com diferentes tradições teológicas dentro da cristandade; uma busca mais apaixonada por Teologia (que foi tão combatida pelos pentecostais da reserva). Além disso, uma evolução no perfil social da denominação foi acontecendo aos poucos: a aceitação crescente do pentecostalismo entre a classe média (ser pentecostal já não é coisa mais de pobre, negro e analfabeto apenas).

Hoje, não são poucos os pentecostais que já não aceitam mais uma postura antiintelectual, arbitrária, ingênua e fechada que caracterizou seus antepassados. O teólogo batista Luiz Sayão disse, em uma de suas palestras, que quando vai ministrar em conferências, congressos e seminários pentecostais vende muito mais de seus livros do que em eventos similares organizados por denominações históricas. 

Creio que isso seja positivo. Uma grande onda jovem pentecostal está consumindo boa literatura, está lendo diferentes pensadores cristãos sem medos, censuras e preconceitos, está aberta ao conhecimento e ao debate de ideias, está "desatanizando" João Calvino. E mais:  está cansada da teologia da prosperidade, está enojada das pregações de pura gritaria e socos no ar, está saturada das canções antropocêntricas, está inquieta com a domesticação de Deus, está irritada com a mercantilização do sagrado e a comercialização da fé, está de "saco cheio" com líderes caudilhescos que não são pastores, mas dominadores da consciência do rebanho, está insatisfeita com esse papo interminável de usos e costumes sendo ensinados como "doutrinas centrais" da fé...

Não afirmo, com esse texto, que o calvinismo deva ser abraçado pelos jovens pentecostais como forma de se colocarem como cristãos evoluídos, inteligentes, de um status superior. Não. O que quero mostrar é que, o fato de muitos adeptos do pentecostalismo se interessarem pela teologia história reformada, pelo diálogo com as diferentes abordagens teológicas, pelo conhecimento bíblico profundo e por uma espiritualidade equilibrada, é sinal de avanço.

Não é preciso medo, nem repressão... No próximo texto a gente continua esse assunto.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Quando tentei ser normal

Meninos normais sabem jogar bola. Isso diziam os meninos da escola, da vizinhança, de todos os cantos...

Sempre preferi os livros. Mas também não queria ser excluído do time dos espertos. Nesse mundo, para conviver, para ter uma boa "socialização" (palavra tão querida aos pedagogos), é preciso, as vezes, tentar gostar de coisas que gente normal gosta. 

Foi assim, então, que tentei ser normal. Era um sábado. Seria a minha grande estréia formal no mundo dos normais. Digo formal porque já tinha, por inúmeras vezes, brincado de bola na rua. Mas eu queria algo mais sério: inscrevi-me em uma escolinha de futebol da cidade (não que me interessasse ser jogador profissional; o que queria, mesmo, era apenas dar uma boa impressão, fazer parte do grupo, alcançar status, semelhante a alguns que estudam Medicina não porque possuam uma vocação médica, mas por status).

Ah! Como ia contando, o tal sábado... Foi a minha primeira partida como titular do time da escolinha contra um adversário importante. O professor me escalou por insistência minha. Hoje, acho que ele bem que deveria simpatizar-se com a pedagogia progressista: "todos os alunos possuem um potencial dentre de si, e o professor deve ser um bom mediador ou incentivador para que esse potencial apareça e se desenvolva... lalalalala"). Mas eu provaria que há competências que não dependem do professor, tampouco do aluno, e que, nem sempre, é possível ser ou fazer o que se quiser, desde que haja estímulos e recursos adequados. Os teólogos dizem que nascemos vocacionados e recebemos de Deus talentos específicos. Eu concordo. Pois vejam o caso de Rubem Alves. Esforçou-se, deu o melhor de si, recebeu lições de exímios pianistas, não lhe faltavam estímulos familiares, teria tudo para ser um excelente músico. Fracassou como pianista, conquistou o mundo como escritor, poeta, educador. Ele disse em algum lugar que não foi capaz de colocar para dentro o piano que estava fora. Aí estava a diferença:o pianista nato não precisa fazer força - apenas coloca para fora o piano que sempre existiu dentro dele.

No meu grande dia deu tudo errado, apesar das orações que fiz antes da partida (é bom lembrar que oração não é palavra mágica da sorte, confissão positiva ou coisa desse tipo, senão coisas ruins não aconteceriam aos que oram). Para começar, estava nervoso, ansioso. Para ficar pior, calcei chuteiras maiores um pouco que meus pés. O zagueiro me fez um passe adiantado, daqueles que põe o outro a correr para alcançar bola. O lance foi bom, mas quando parti, em galope, para pegar o objeto redondo que rastejava velozmente sobre a grama, me desequilibrei e tropecei nas próprias chuteiras (um pé se tornou rival do outro; já imaginaram a cena, não é mesmo?). 

Fui retirado da partida. Temi olhar para o rosto do técnico (estaria rindo ou com cara de bravo?, essa dúvida me acompanhará para sempre). Quem entrou no meu lugar fez até gol. Não me senti humilhado. Na verdade fiquei feliz. A escolinha era chata; jogar bola na rua era mais divertido e não me exigia tanta técnica. Além disso, fiquei convencido de que minhas habilidades eram outras e estava livre de pressões internas. 

Amigos me dizem que estou sedentário, que não posso viver só de livros. Convidaram-me para uma "pelada" hoje. Não sei se vou. Ah... Talvez outro dia. Hoje, preciso continuar a leitura do maravilhoso livro "O Idiota" de Dostoiévski.

terça-feira, 31 de março de 2015

O menino do pijama manchado

Eu o vi, tão tímido, sair detrás das pernas de sua mãe para olhar os rostos dos visitantes. Entramos na casinha dele, eu, uma americana, um casal argentino, todos missionários da Jocum. Era uma casinha de um único cômodo, chão de terra batida, telhado de lona e paredes que pareciam um mosaico de diferentes materiais: papelão, plástico, metal,tecido, borracha de pneu.

O menino do pijama manchado tinha dois irmãos, pouca coisa mais velhos. Seus pais eram catadores de papelão naquela turbulenta Buenos Aires. O lugar onde a família morava, com dezenas de outras famílias, era uma área urbana de ocupação ilegal, próxima à linha do trem.

Não consigo esquecer o seu rosto, o seu cabelo desgrenhado e o seu pijama manchado. Não eram manchas de tecido sujo, mas de tecido velho, daquele que, por mais que se esfregue, não tem jeito, continua encardido. Perguntei o seu nome. Recebi de volta um silêncio tímido. Mudo, ele acomodou-se ao meu lado, nos assentos que sua jovem mãe havia providenciado para nós. O seus olhos cor- de- café, cativos ao solo, só se mexiam na minha direção na hora de passar a cuia de mate para as minhas mãos (na Argentina toda roda de conversa é regada a mate - semelhante ao chimarrão gaúcho -  e tomam todos numa mesma cuia com um mesmo canudo (bombilla), num ritual de fraternidade). 

Depois das conversas, orações e rodadas de mate, fomos embora. Lá ficou o menino do pijama manchado. Não sei como está o trabalho atual de apoio missionário cristão à família dele, bem como às demais famílias daquela comunidade. 

Diz Rubens Alves que escrevemos sobre aquilo que queremos eternizar, escrevemos para tonar a ausência em presença, para trazer para perto o que está longe. Se for assim, por isso escrevo agora sobre o menino do pijama manchado. Talvez seja esse o motivo, também, para Mateus, Marcos, Lucas e João terem recontado o Evangelho de Jesus. 

Em algumas noites, sozinho com os meus pensamentos, lembro-me dele. Será como está hoje? Mora na mesma casinha? Seus olhos cor-de-café ainda abrigam sofrimentos? As vezes choro... Acho que por isso gosto tanto da literatura de Dostoiévski; leia suas obras, especialmente Os irmãos Karamázov e você vai perceber a dor que ele sente por causa dos sofrimentos das crianças. Não sei para que elas sofrem, mas sei que seus sofrimentos são os sofrimentos do próprio Deus no mundo.

Queria agora tomar um mate com ele...


domingo, 29 de março de 2015

Sofra Scriptura: movimento atual de contra-reforma


A grande contribuição ao cristianismo, vinda dos grandes luminares da Reforma, foi a centralização das Escrituras (AT e NT) como única autoridade definitiva para o pensamento e a ação da Igreja. Sola Scriptura é a principal bandeira da Reforma.


Mas, sempre existiram movimentos contrários interna e externamente. No plano interno, a tradição religiosa, sustentada pelas estruturas de poder eclesiásticas, ousou, muitas vezes, falar mais alto que a Bíblia. Fora dos arraiais da cristandade, o racionalismo moderno se empenhou em rebaixar as Escrituras à categoria de um livro de mitos, um texto a ser dessacralizado e submetido à fria e crua crítica racional. 

Vamos, então, falar da nossa realidade hoje. Os evangélicos, herdeiros da Reforma, deveriam ser os guardiões do Sola Scriptura. No entanto, o que se vê, a olhos nus, em boa parte do evangelicalismo verde-e-amarelo é o Sofra Scriptura. Isso mesmo. Se alguma coisa tiver que sofrer, para muitos líderes e grupos evangélicos atualmente, que sofram as Escrituras, jamais a tradição tola, jamais os costumes incoerentes e descontextualizados, jamais as novidades teológicas e produtos espirituais que aquecem o mercado religioso.

Como sofrem as Escrituras até sangrar... O que fizeram com a Palavra Encarnada, fazem muitos no nosso contexto com a Palavra Escrita: cospem, zombam, amaldiçoam, chicoteiam, maltratam. 

O Sofra Escriptura se evidencia escandalosamente em situações, como:

- quando alguém assume o púlpito sem saber o que está fazendo, usando a Bíblia, em muitos casos, apenas como um start para a pregação ou como forma de legitimar as mais equivocadas e subjetivas ideias;

-quando pastores são ordenados sem a necessária formação bíblica;

- quando a Bíblia é pregada parcialmente, com textos sendo amputados de seus contextos, a fim de sustentar interesses duvidosos ou atender o gosto da clientela;

-quando alguns pastores, ao invés de se empenharem no ministério da Palavra e pregarem todo o conselho de Deus ao rebanho, preferem ser negligentes, dando maior atenção a tarefas secundárias;

-quando profetas de "novas revelações" e gurus espirituais evangélicos recebem maior atenção do que os autênticos e competentes pregadores do Evangelho;

-quando pastores caudilhescos insistem em dominar as frágeis consciências das ovelhas, com seus insuportáveis sermões sobre as mais diversas proibições e "bons costumes", confundindo antiguidade com eternidade, padrões subjetivos e culturais com valores bíblicos eternos, como critica Robinson Cavalcanti;

-quando cristãos carregam a Bíblia para a igreja, mas não a vivenciam em suas realidades pessoais e sociais, ou quando conhecem mais as últimas fofocas sobre os famosos do que textos bíblicos;

-quando se reserva à pregação apenas os 10 minutos finais do culto;

-quando se compõem e se cantam músicas cristãs contemporâneas que não expressam com integridade e beleza a mensagem bíblica...

Poderíamos falar de outras coisas. Mas um outro dia.
Já sofri demais por hoje. 


terça-feira, 24 de março de 2015

A professora que roubava livros

Conta mamãe que minha paixão por livros vem da infância. Quando ela ou meu pai chegava com um livro em casa, minha atenção se voltava logo para o tal "brinquedo" de papel. Meu primeiro presente literário, depois de alfabetizado, foi a Bíblia Sagrada. Até hoje lamento por tê-la perdido em algum lugar; apesar de ter anotado meu nome e endereço na página em branco, antes de Gênesis, nunca a devolveram ao seu dono. Adquiri vários outros exemplares do Livro, mas não há nada como a primeira Bíblia...

Mas um caso interessante, envolvendo meu amor infantil pelos livros, remonta ao dia da minha formatura de alfabetização. Quando a professora cerimonialista chamou o meu nome para ir a frente receber o diploma, entregou-me também um livro (não me lembro do seu título, mas me lembro, sim, que era um livro de histórias infantis). Essa entrega do livro era um ato simbólico, demonstrando a passagem do aluno alfabetizado para o maravilhoso mundo da leitura e da escrita. Tirei fotografias e voltei ao meu lugar com ar de triunfo. Bem, até que uma atitude estragasse a noite de uma criança.

Uma outra professora, responsável também pela cerimônia, veio a mim, ao final, e pediu-me que devolvesse o livro, pois não era presente, mas um rápido empréstimo só para realizar o "ritual de passagem". Não queria devolvê-lo. Só o larguei com a fiel promessa materna de brevemente comprar-me outro no lugar. Mas todos viram as minhas lágrimas, lágrimas que foram molhando o nosso caminho de volta para casa.

Dizem que para fazer uma criança feliz, basta dar-lhe um pirulito. Para mim, bastava dar-me um livro. Até hoje as estantes cheias de livros me fascinam. E uma biblioteca? Ah, verdadeiros santuários, solos sagrados, terra que mana o leito e o mel dos saberes sem fim. E o cheirinho de livro novo? Ah, só não me traz mais felicidade que o perfume da minha esposa!

Experimente a doce sensação de dar (e não roubar) um livro a uma criança. Caso o seu coração transborde em generosidade, dá-me um livro também, preferencialmente no meu aniversário (30 de Julho), e você, sem preocupação alguma, acertará no presente e fará um adulto feliz.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Taioba não é couve: uma análise crítica do termo “neopentecostal”

No primeiros meses do nosso casamento ("casadinho de pouco", como se fala em Minas), minha esposa, ainda não muito experiente na classificação das verduras, certa vez preparou um delicioso angu com taioba, com um gracioso convite: "venha amor, comer angu com couve!". Ela confundiu os nomes, mas não errou o tempero! Rimos um pouco e comemos com alegria esse prato mineiro. 

Casinhos pessoais à parte, há um movimento religioso crescente no país que tem sido alvo de muitos debates e estudos entre os cientistas sócias, teólogos, filósofos e estudiosos em geral. Trata-se do "fenômeno mais recente, integrante e explosivo do ‘protestantismo’ tupiniquim", segundo Alderi Souza de Matos*. Estamos falando das igrejas neopentecostais, denominada por alguns de "pentecostalismo autônomo", em virtude de seus contrastes com os grupos mais antigos desse movimento.

O neopentecostalismo, conforme praticado em muitas igrejas brasileiras, não possui relação alguma com o pentecostalismo clássico, do qual fazem parte os “protestantes pentecostais, herdeiros daquela igreja original, dirigida por um negro caolho [Willian Seymour]..., mas que abalaria os alicerces religiosos do mundo”, de acordo com o bispo anglicano Robinson Cavalcanti**.

O termo grego “neo” significa “novo”, “recente”. Uma avaliação honesta das igrejas neopentecostais irá revelar sinais preocupantes nos seus ensinos e práticas. O neopentecostalismo - com suas aberrações hermenêuticas (livre interpretação ao invés de livre exame das Escrituras), seu sincretismo místico, seu experiencialismo acentuado, seu antiintelectualismo, sua teologia da prosperidade e quebra de maldição hereditária, seu triunfalismo materialista, seu pragmatismo mercantilista, sua exploração comercial da fé, seu medianismo evangélico (valorização das “revelações” acima da interpretação correta das Escrituras), seu “deus Papai Noel”, seu evangelho “varinha de condão”, suas palavras cabalísticas para abrir todas as portas dos tesouros de Deus, seu relacionamento utilitarista com o Sagrado - não se trata de um “novo” pentecostalismo e sim de um “pseudo” (falso) pentecostalismo. Robinson Cavalcanti assim coloca: 

“Agora, todo teólogo, historiador ou sociólogo da religião sérios, perceberá a inadequação do termo “protestante” ou “evangélico” (por absoluta falta de identificação caracterizadora) com o impropriamente chamado “neo-pentecostalismo”, na verdade seitas para-protestantes pseudo-pentecostais (universais, internacionais, mundiais, galáxicas ou cósmicas), e que é algo perverso e desonesto interpretar e generalizar o protestantismo, e, mais ainda, o evangelicalismo brasileiro, a partir das mesmas”.

Os falsos ensinadores sempre foram um problema para a Igreja de Cristo. Desde os tempos da Igreja Antiga eles foram desmascarados e combatidos pelos apóstolos e polemistas. O pentecostalismo cresceu explosivamente e, quando qualquer instituição, grupo ou movimento social cresce, é inevitável que ao lado do crescimento do trigo haja um aumento significativo do joio. Conforme observa Matos, “o neopentecostalismo representa um grande desafio para as igrejas históricas e mesmo para as pentecostais clássicas. Esse movimento tem encontrado novas formas de atrair as massas que não estão sendo alcançadas pelas igrejas mais antigas”.

Meu coração não está cheio de odiosidade ou orgulho denominacional. Acredito sim que há muita gente séria, cheia do Espírito Santo (o que é demonstrado em suas obras de justiça), buscando crescer na graça e no conhecimento de Cristo (devocionalidade e discipulado) dentro dessas igrejas neopentecostais. Reconheço que o grande problema, como conclui Matos, está “nas megaigrejas e seus líderes centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro”. Líderes que enganam o povo por interesses gananciosos, verdadeiros “numerólatras” (querem templos cheios de crentes espiritualmente e biblicamente vazios), quando deveriam transmitir-lhe com fidelidade todos os conselhos de Deus.

Há muita taioba sendo confundida com couve.Que o Pai das Luzes nos dê discernimento...

Referências:
*MATOS, Alderi Souza de. A Integridade do Evangelho: uma avaliação do neopentecostalismo.
**CAVALCANTI, Robinson. Deus Não Nos Livre de Um País Evangélico.

Esse texto também foi publicado em: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/taioba-nao-e-couve-uma-analise-critica-do-termo-neopentecostal 

domingo, 22 de março de 2015

Pentecostalismo hoje: fábrica de esquisitices?



Luiz Sayão, em seu livro “Agora sim!: Teologia na prática do começo ao fim”, comenta que “Deus quer que sejamos diferentes, mas alguns preferem ser esquisitos”. Apesar do tom bem humorado, há uma crítica séria por trás dessas palavras ao comportamento de alguns evangélicos de nossos dias.

O que aqui vou escrever não parte de resultados de pesquisas de mestrado ou doutorado, mas de observações ocasionais e de relatos frequentes. Parece-me que os meios pentecostais e neopentecostais, principalmente, são fabricantes de gente esquisita, chata, estranha mesmo, que parece não viver sob o mesmo sol que os demais mortais.

São diversas as esquisitices, como por exemplo: a demonização de quase tudo (aquela mania de ver demônio em todo lugar, seja numa lâmpada que queima ou num cachorro que late); a “pecaminização” de tudo que seja agradável ao corpo e a sacralização da dor e do sofrimento (orar 3 horas ajoelhado é espiritual, mas passar uns dias na praia é coisa de crente carnal); a supervalorização das “novas revelações” em detrimento da fiel interpretação bíblica; a inquisição pastoral  (quem pensa diferente do pastor é rebelde e está “tocando no ungido”); a linguagem da intimidação espiritual (“faça assim ou faça assado, porque senão Deus vai...”); a espiritualização da bagunça e da desorganização litúrgica (quanto mais improvisado, barulhento, gritado e não programado for um culto, mais espiritual é, parecendo ser surdo e desorganizado o Espírito Santo), etc.

Diante da perda de uma mãe, não é coerente e natural que um filho chore? Ora, para os filhos de Adão, as lágrimas são transbordamentos de uma alma tocada pela beleza ou pela dor. Mas em um velório que presenciei, um desses crentes esquisitos, ao ver o filho lamentar a morte da mãe, teceu o comentário mais inútil e descabido: “Como pode um cristão que conhece a Bíblia chorar desse jeito pela perda de uma pessoa querida que partiu em Cristo? Ele não acredita no céu e na ressurreição dos mortos?”. Soterrar as emoções em meio a dor, a pretexto de uma aparência de crente super-herói, não é traço de espiritualidade, mas de insanidade, distúrbio psicológico.

Um outro moço veio a mim, cheio de confusões internas, de conflitos na alma, porque sofrera um acidente e um tal “profeta” de esquisitices foi a sua casa lhe dizer que a “causa espiritual” do ocorrido foi o fato do pobre acidentado não ter pago o dízimo, e Deus, então, “pesou a mão”, forçando-lhe a gastar com medicamentos aquilo que deveria dar ao Senhor. Um argumentos desses caricatura Deus e profana o Seu nome.
Não entendam o título do meu texto como um preconceito barato em relação aos grupos pentecostais. Mas, infelizmente, esquisitices como essas, são vivenciadas com frequências nesses meios.

Quando Paulo fala sobre Deus escolhendo as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, o apóstolo está demonstrando o maravilhoso mistério da graça, pela qual Deus salva os seus eleitos não pelos méritos ou qualidades que possam ter, contrastando com os valores e critérios da sabedoria desse mundo. Jamais Paulo está aqui sacralizando as esquisitices pseudo espirituais.


Distúrbios psíquicos, ideias e comportamentos equivocados no arraial evangélico, devem ser tratados e corrigidos e não protegidos sob o manto da livre expressão subjetiva da espiritualidade. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Esse tal de "reteté"

Quem inventou esse tal de "reteté"? Seja lá quem lançou isso no meio pentecostal, "reteté" virou moda, estilo musical, estilo de pregação e por aí vai. Sinceramente, respeito todas as manifestações religiosas no meio pentecostal. Mas também é preciso ver as coisas com o olhar do bom entendimento. 
O tal do "reteté", em muitos cultos de algumas igrejas que se dizem pentecostais, é uma mistura de arrasta-pé, golpes de karate e umas gritarias esquisitas. O grande problema não está nas manifestações corpóreas e vocais em si, mas no sentido, na finalidade . Qual a razão de tudo isso? 
Tem gente que entra no "reteté" com uma "cara lavada"... você percebe que a coisa é forçada, interpretada, encenada. Qual o propósito relevante dessas experiências? Que fundamento há? Já ouvi um defensor do reteté recorrer ao texto paulino que afirma que "Deus escolheu as coisas loucas desse mundo para confundir as sábias". Já ouvi dizer também que Davi entrou no "reteté" na ocasião do retorno da Arca da Aliança para Jerusalém. Os de espírito mais humorístico dizem que Jesus era do "reteté". Afirmam que o "reteté" é alegria no e do Espírito, é o explodir da glória de Deus, é o transbordar da unção, capaz de levar a pessoa a perder o domínio do próprio corpo. Os praticantes do reteté alegam que as expressões são involuntárias e imprevisíveis, ou seja, não é a pessoa, mas o Espírito de Deus que dela se apodera, conduzindo-a aos movimentos e manifestações.
Longe de mim ser grosseiro com a fé de alguém. O que desejo não é agressão, muito menos escárnio, mas sim, reflexão. Observo, não raras vezes, pregadores e cantores que praticam o reteté como apelo emocional. Conta-se que um jovem pregador, antes de pregar, cochichava para um de seus amigos: “quer ver como coloco fogo nesse culto?”. Pregava meia dúzia de palavras, fechava a Bíblia, tirava o paletó e soltava um carrilhão de “línguas estranhas” e “profecias” e desferia uma série de socos e chutes no ar. E a galera ia à loucura! O mais importante esse jovem negligenciava nas suas pregações: a exposição da Palavra que cura, salva e transforma. 
Tem muita gente cheia de “reteté” e sem fé, sem amor, que não gosta de ler a Bíblia. Acredito que quando o Espírito nos controla um novo coração é implantado em nós.O problema é que o reteté se tornou uma cultura tão forte em algumas igrejas, que a maioria das músicas evangélicas, no estilo pentecostal, são feitas no ritmo que proporcione um clima propício para que as pessoas entrem no “reteté”. Surgiram grupos musicais que cantam um forró gospel pentecostal, ideal para ser tocado nos cultos e vigílias, cujo interesse é apenas o de levar todo mundo a se “descabelar” no “reteté”, ao invés de se buscar mais comunhão com Deus em oração e adoração. Tem pregador que, ao concluir a mensagem, pede para que alguém cante uma “música de poder” ou de “fogo” para que o povo entre no reteté. Isso virou moda gente! Em muitos eventos “pentecostais” se o pregador e o cantor não fizerem o reteté, o povo sai falando mal, dizendo que o sujeito não tem unção. Um dia eu convidei um jovem pastor para pregar em um congresso de adolescentes na minha igreja. Alguém me perguntou: “esse pregador é do reteté?” Gentilmente respondi: “se ele é do reteté, isso não sei; o que sei é que ele é um pregador, e é isso que nós precisamos em nosso congresso – alguém que pregue a Palavra”.
Tem gente que pratica o reteté sem saber o porquê e o pra quê. “As coisas de Deus não se explicam”, afirmam alguns. É preciso pedir-se desculpas à irmã Hermenêutica e ao irmão Bom Senso, infelizmente tão desprezados por alguns crentes. É preciso que se leia mais os ensinos de Paulo aos irmãos coríntios. É preciso um resgate da espiritualidade genuína.

Cristão fora do palco

Creio que a melhor palavra que defina a vocação, o chamamento essencial de um cristão é “testemunho”. Cristo encerrou sua carreira terra convocando seus discípulos para uma vida testemunhal (Atos 1.8).

Gosto da definição de “testemunha” dada por Eugene Peterson: “Uma testemunha nunca é o centro, é só a pessoa que indica ou dá nome ao que está acontecendo no centro – (...), a ação e a revelação de Deus em todas as operações do Pai, Filho e Espírito Santo”. É um chamado vivido no âmbito do contexto da revelação divina dentro de uma sociedade tão completamente secularizada quanto a nossa.

O cristão não é chamado para ser o centro, mas para apontar para Ele.

Então, por que tantas músicas cantadas nas igrejas, cujas letras evocam um desejo desesperado pelo palco, nome publicado nos jornais, exaltação e coisas desse tipo? Por que tantas pregações que afirmam que o cristão fiel é sempre colocado por Deus em evidência? Deus agora é o nosso agente publicitário?